Apresentação do Livro A LIBERDADE Actual, de Luís Pais Amante
20 de janeiro de 2024
Começo este encontro convosco, aqui neste dia tão especial para o Luís e para nós - família e amigos aqui presentes- num ano particular, 2024, tempo de comemoração dos 50 anos de Liberdade em Portugal, com uma mensagem do médico Adolfo Correia da Rocha, grande romancista, ensaísta, escritor e poeta, cujo pseudónimo é Miguel Torga (1907-1995),
Escreveu ele nos seus Diários, em 1977:
Não há pensamento onde não há liberdade. Os nossos oito séculos de opressão e de intolerância deram isto: um povo cujos intelectuais raciocinam sempre a fazer figas.
Para ficar assinalado dentro de cada um de nós aqui presentes, na memória afectiva desta Penacova, terra maravilhosa, acolhedora, cujo reflexo e brilho das águas do rio Mondego servem de inspiração e dão emoções fortes ao autor, que nos abraça, aceitei este convite do meu querido marido para apresentar o seu livro A LIBERDADE Actual, como um repto do meu amante, cuja sensibilidade e sábia inteligência me deixa ainda surpreendida!
Confesso, que este pedido me causou espanto.
Aos poucos fui-me mentalizando, sentindo reconhecimento e apreço, como um misto de sensações, as que daqui emanam, pela responsabilidade da tarefa e pela proposta de objetividade (im)possível.
Este convite difícil de recusar e de responder, para pensar tanto o Autor como a qualidade da sua Obra - uma vez que não poderei ser tão isenta como seria de esperar - tem a vantagem de, estando ao seu lado e vivendo com ele este percurso poético e literário, poder partilhar convosco, a minha con-vivência privilegiada com a essência do Luís, do lugar da inspiração e da criação simbólica.
O desejo subjetivo que pretendo transmitir, é o do legado de SER Livre com o amor à vida e à verdade, à família que trazemos dentro de nós, também enquanto Avós orgulhosos e crentes num futuro escolhido e construído para e com os filhos e netos, o que vivemos com a Esperança que as gerações futuras nos dão; … retendo que é precisamente à geração dos nossos netos, a quem este livro foi dedicado: André, Madalena, Martim, Maria Teresa, Margarida e Maria do Carmo.
Para fazer crescer sensibilidade e fantasia, ampliar sonhos e pensamento simbólico para dar sentido à vida, há que contar memórias e estórias às crianças e aos jovens aqui presentes, adultos de amanhã.
Para fazer Cultura e Conhecimento há que comunicar, divulgar o que se vive e sente na alma consciente do nosso Eu, do sujeito desejante;
…há que partilhar e compartilhar a nossa historia de vida, a dos avós e das origens, aos nossos filhos e netos, sem medo de passar os valores, as crenças, os costumes antigos do passado, da vida familiar de então e, até revelar sonhos e devaneios;
…o que importa é dialogar e escutar com os mais jovens, ouvir verdadeiramente o que estas gerações também têm para nos ensinar e contar, apreender com eles o inédito e, assim abrirmos espaço de encontro;
…há que criar momentos na dinâmica familiar – para além da correria do fazer do dia a dia - em pausa do uso das máquinas eletrónicas, espaço de aprofundar relações com a música e a arte, o diálogo com sentimento genuíno, mesmo deixando trespassar vulnerabilidades e emoções.
Esse é o tempo de qualidade.
Aí ensaiam-se vínculos de amizade e confiança, aprende-se no reconhecimento dos afectos, a arte da com-vivermos em liberdade com o melhor, o insuficiente e também com o pior da condição humana.
Parafraseando o poema Sísifo dos Diários de Miguel Torga (1977), diz-nos ele:
se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade
O mito de Sísifo conta-nos a história de um homem, da Grécia Antiga, hábil e inteligente, persistente em recomeçar, fundador da cidade de Coríntia que irritou os deuses porque conseguiu prender Tanatos. Como castigo de Zeus, o deus dos deuses e dos deuses da morte e da guerra, Sísifo nunca mais morreu, mas teve de cumprir um castigo eterno: realizar um trabalho exaustivo e sem fim. Teria de empurrar uma enorme pedra montanha acima. Esta, quando chegava ao topo, devido ao cansaço do homem, rolava morro abaixo. Sísifo deveria novamente levá-la para cima. Esse trabalho teria que ser feito todos os dias, por toda a eternidade.
A memória de futuro, a criação, a perseverança e a lucidez, bem como o empenho com inteligência parecem-me caracterizar, parte da essência imanente de Luís Pais Amante submetido à sua deusa severa chamada Necessidade, espraiando-se no gozo e afã da criação da palavra escrita.
Frequentemente encontro o autor num despojamento existencial, absorto, não condenado ao determinismo, onde o tempo é horizonte da compreensão do seu sentido de Ser (Heidegger, 2012) mas completamente livre e entregue ao pensamento, à sua racionalidade na sua dimensão existencial. (Sartre, 2014).
Nesses momentos pressinto e, observo com orgulho, que o autor está a projetar o ser-em-si no nada, como protagonista único do seu projeto de vida. É no próprio acto da escrita, que esboça, cria e comunica a sua visão do mundo, com o propósito ético de transmitir essas leituras subjetivas a todos, como responsabilidade social e política na polis.
Encerrado em si, em diálogo com o mundo interno povoado de recordações e de vivências que o acompanham intimamente, ausente de qualquer interação, engendra a existência humana condenada à liberdade, porque não pode renunciar quem é.
Escrevendo com lucidez, perpetua o seu apego à realidade, à dignidade, na relação dinâmica e transformadora de olhar o mundo circundante, onde o não-ser (o nada) busca essência não em si, mas na pluralidade; à descoberta do para si, manifestação do seu sentido mais alto de pragmatismo onto-fenomenológico. (Sartre, 2014).
O efeito da ars poética está no talento e insight que o autor -não sendo psicanalista- recolhe do seu espaço psíquico íntimo, recordações que o presente pode evocar, que ajuda o leitor a libertar as tensões da mente, parafraseando Sigmund Freud no trabalho Escritores Criativos e Devaneios de 1907/8
A propósito do poema Liberdade, diz-nos o autor:
Eu gosto de ser livre
De sonhar ao vento
De caminhar ao relento,
de respeitar o outro em ti,
Sentir passar-te por entre os dedos da mão
Sorver o som da tua melodia em algodão
Acariciar-te, etc, etc.
Enfim, assume-se e, é um homem livre, apaixonado pelas coisas simples da vida, pelos costumes das suas origens, mas também sabe envolver-se e aproximar-se do novo e do original, antecipando prestígio e sucesso.
Acrescento com descrição, que surpreendi o Luís no dia do seu aniversário, em 15 de janeiro de 2012, com uma primeira Edição de Autor dos seus poemas capeados.
Aí, nesse primeiro livro, reuni e compilei alguns dos poemas escritos nas contracapas da muita literatura, que o autor desfolhava nos intervalos do seu trabalho como Consultor Internacional e, nas inúmeras viagens pelo mundo, que foi realizando como Presidente do Grupo Place, enquanto mentor de negociações e em preparação, implementação e avaliação de projectos.
Sou tão sua admiradora como crítica em primeira mão, como ainda me sinto, por vezes uma pequenina musa “companheira de route”. Surpreende-me com a sua riqueza, profundidade e criatividade, como se fosse a primeira vez, que o escuto ou o leio.
Também, aqui me cabe convocar o facto de o seu primeiro poema ter sido publicado na idade jovem de 17 anos, numa brochura do Movimento Joaninha de Penacova, de que era coordenador, em fevereiro de 1973.
Poema alusivo à desumanidade do tempo da guerra do Vietname, já com preocupações politico-ideológicas que o inquietavam e, se mantêm, movendo-o a dar passos para construir Paz e, onde dizia:
Tempo de Paz
Há gritos, há tiros
Há morte, há desgraça
Para lá do arame
E, de repente começa
A Paz no Vietnam!
Será a paz o tempo
em que nada se faz?
Não!
Com ela acaba a morte audaz
E só do bem fazer se é capaz…
O Luís Pais Amante tem-nos proporcionado realizar imensas viagens interiores, em sinestesias - a associação livre de dois ou mais dos cinco sentidos humanos – com sentimento e sagacidade cujas tonalidades e formas caleidoscópicas da sua escrita transformam-se em – poesia, opinião e prosa, que espelham o seu ser intuitivo, buscando-se noutros horizontes... e até na transcendência.
Revela-se um homem insatisfeito, intenso e acelerado porque como diz frequentemente não tem tempo a perder e sendo virtuoso e pródigo em representações e elocuções éticas e de figuras imagéticas, analogias e metáforas, reduz o hiato entre desejo e satisfação.
Versátil na capacidade de rêverie sustenta-se naquela habilidade sensorial e sensitiva, denunciando o seu posicionamento humanista nas elocuções éticas que fazem parte de si em todas as facetas da sua personalidade.
Neste livro A Liberdade Actual, prefaciado pelo Professor David Almeida, cuja leitura recomendo, elucida reflexões que por ele, aqui, foram muito bem reveladas e sintetizados.
Sublinho, ainda, a importante e estreita colaboração que se tem desenvolvido entre o autor e o Jornal Digital Penacova Actual, na pessoa do Pedro Viseu, que tem auxiliado a divulgação do trabalho literário não só do autor, como tem aprofundado o sentimento de pertença dos cidadãos do município, entre os que cá vivem com os que partiram para outras paragens do território nacional e internacional.
Luís Pais Amante, comprometido com a cultura beirã da sua terra natal, penacovense de gema, como sujeito desejante, leader por natureza, preocupa-se com o bem-estar das pessoas e interiorizou a responsabilidade social da importância da função pedagógica da arte poética, cujo dom nasceu com ele.
Este espírito delicado atraído pela felicidade do homem racional, amigo do seu amigo também não deixa de ser um animal político numa visão Aristotélica.
Distribui no interior do Outro o seu empowerment, rege-se pelo seu livre e honesto arbítrio, na apreciação estética, filosófica e política do mundo civilizacional contemporâneo, construindo as suas hipóteses interpelativas, independente do influxo externo e fixando o seu amor à verdade (Bion,1973) na análise e observação em sintonia profunda com os seus mais íntimos sentimentos audazes e corajosos.
Luís Pais Amante vive na Modernidade tardia, ou Metamodernidade - e tem consciência disso, pelas observações e opiniões que aqui são publicadas.
Apreciei e deixo como sugestão A “Eutanásia” incompetente; A “profissão” que Abril não queria; e O País em suspenso, análises e reflexões da sociedade da informação que se revela incoerente para alguns, mas sim esvaziada de narrativas e de historicidade.
Como tão bem nos elucida, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, autor da recente obra a Sociedade do Cansaço (2014) e A Crise da Narrativa (2023) estamos quase sucumbidos à falta de sentido de vida, à falta de consciência do Outro, à alteridade, privilegiando o paradigma do desempenho e do consumo, na auto e heteroexploração do trabalho para que, paradoxalmente, nos considerarmos livres.
Livres? Livres?
Livres como? Livres para quê?
Pergunto eu.
Pergunta o autor e o poeta.
A sociedade de informação sendo instantânea, momentânea, não faz memória do futuro!
Envolve as pessoas num coletivo mais solitário, infeliz, frágil.
Os seres humanos tornaram-se mais desorientadas, fixados à factualidade das relações interpessoais, sem tempo de estar com o Outro, sem possibilidade de contarem estórias e fazerem história.
A Humanidade, estando mais alienada da conceção da sua finitude e da morte, como posicionamento generalizado, reduz o valor da existência do Ser, ao tempo vivido em contingências, em que a des-narração generalizada das vivências e a nudez de estilos de vida, reforça a aridez existencial, como também aumenta o sentimento de desligamento, de transitoriedade e de instantaneidade. Citando José Tolentino Mendonça,
Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos dos outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar, tudo transita num golpe ruidoso veemente e efémero.
Apesar de estarmos em Penacova, numa vila do interior de Portugal, não seremos ou estaremos nós aqui presentes, testemunhas e até protagonistas, de parcas e cada vez mais pobres experiências vividas em conjunto, num coletivo civilizacional esvaziado, quase adormecido, senão estilhaçado, numa frenética dependência do digital, do smartphone e das redes sociais?
Parece que estamos esmagados pelo individualismo como consumidores finais, em que o valor do ser/estar aí nas relações humanas, inscrevem-se na distração e alheamento senão dispersão, remetendo o acolhimento do outro, para depois agora não…
Da escuta, da liberdade de viver com tempo e disponibilidade, que ainda se vai sentindo a fugir, aqui, por estes lugares, não cosmopolitas, a verdade é que nos temos tornado tendencialmente, seres associais, desconfiados e ou isolados do coletivo.
Ao longo da História da Humanidade, a escravatura foi sendo abolida, mas hoje, sec.XXI, verificamos que co-existimos com estilos de vida assombrados pela pulsão tanática, quase sem alternativa, onde os processos migratórios em massa à escala planetária, onde se compra e vende pessoas como se de objetos se tratassem, onde Ilegalmente se compra e se vende o bilhete da ilusão de liberdade, para fugir da guerra, da fome e da morte.
A era da inteligência universal anónima, avatares que nos orientam por algoritmos as decisões de quaisquer cidadãos do mundo, nesta civilização em crescimento digital chegou!
Útil e vantajosa em diversos domínios o acesso à Informação é impessoal, frio e volátil. Permite aproximação relativa entre as pessoas, proporcionando socialização virtual, mas esta pode confundir o sujeito com o seu desejo e a liberdade.
Por efeitos do avanço tecnológico, somos rapidamente inscritos em bases de dados e tornamo-nos em ser robotizados expostos e condicionados ao já programável e controlado por máquinas não-éticas, que aprendem cada vez mais por si mesmas e cuja manipulação proveniente da Inteligência Artificial (I.A) vem minimizar ou mesmo substituir a motivação e vontade do Homem.
Este poder da IA, outorgado pelos humanos e a crescente guerra cibernética, leva-nos a interrogar e a pensar a ética para uma moral computacional.
É imperioso regular a competição, os riscos e as vicissitudes da cibernética, para segurança ontológica de todos nós.
Recomendo a obra intitulada Máquinas Éticas, Da Moral da Máquina à Maquinaria Moral, trabalho conjunto do Prof. Luís Moniz Pereira e do filósofo António Lopes.
Embora estes avanços tecnológicos sejam uma conquista extraordinária da espécie humana sobre a Natureza, o sonho e o ideal é o de que todos -em equidade-a beneficiássemos de forma igualitária e justa.
!Mas já se avizinha a repetição da História: grandes êxitos grandes desigualdades entre os Povos!
Contemos histórias e alimentemo-nos de relações com os amigos e família e façamos por entender as necessidades e interesses do outro, com a alma sensível, amorosa e, criativa que cada um possui e não se esqueçam por favor de se cumprirem com sujeitos dignos que fazem por SER como desejem Ser!
E, voltando ao Poeta, retomo alguns pensamentos e confidencias sobre a experiência de vida partilhada com o autor, de Luís Pais Amante, para pensarmos aqui em conjunto, este contexto que inclui e envolve a obra A Liberdade Actual.
Como se pode comprovar ao longo da obra já publicada, individual e anteriormente: Conexões; Reflexos; Poesia das Circunstâncias do Tempo; Penacova (in) Temporal e Inquietude, para além da participação em obras coletivas, o autor apresenta-se e faz declaração da sua livre expressão, de pensamento próprio desligado de interferências alheias.
A partir dos títulos dos livros já publicados apreende-se o lugar de observador/testemunha e protagonista da co-construção de realidades alternativas do mundo paradoxalmente mais livre, estreito e fechado que nos submete a escravaturas.
A interpretação e a transformação em poesia, opiniões e devaneios, tempo intermédio da Modernidade tardia, que referi acima, leva-nos ao rubro a sua ironia sincera, exprimindo coerência na condição humana, realizando conexões entre a luz, as sombras e as trevas, entre a clareza e a incerteza, a amálgama e a complexidade das circunstâncias da vida dos nossos tempos.
Inquieto e melancólico, pela incerteza da evolução dos tempos, concentrado no melhor de si mesmo como pessoa-cidadão, cronista e poeta, presentemente numa fase da pró-cura do enigma da construção do soneto, escreveu um poema admirável, que pode auxiliar o sentir de qualquer um de nós passageiros deste planeta, que nos interroga profundamente,
Nu
Neste tempo de percurso cinzento, fiquei nu
Corri devagar, pensei sem saber, contive a tristeza
Não sorri, nem o exteriorizei, nem falei com o cu
Apenas dei por mim a percorrê-lo só, com leveza
A minha rua, sem gente, vai nua de despojada
E eu vou despido no silêncio que me afaga
De beijos francos, carinhos em laço de vaga
De abraços ternos, de ti como sorte almejada
Nu é o despido de tudo, até da auto-estima
Silêncio é o ponto mais assertivo da rima
Gente é vida, amizade é culto abrangente
A tristeza cresce nesta condição dormente
O mundo entorpece até para lá do pungente
A crença desvanece, passando a saber a lima
Luís Pais Amante
Telheiras Residence
9Set20; 17h45
Cogitando sobre as consequências deste tempo
A mensagem da obra reflete um grito, um alerta à Liberdade individual e coletiva, à dignidade, à importância da atitude vigilante face ao modo como vivemos quase sem escolha, que traduz a alma sensível e cuidadosa que define o autor.
O espírito intrinsecamente genuíno, sem disfarces, frontal como alguns de Vós conhecem desde a sua tenra idade, tem um estilo relacional épico e apaixonado pelas pessoas e pelas causas profundas e verdadeiras como a liberdade, a igualdade e a justiça, sendo esta matriz constante nas diferentes áreas do seu percurso de vida.
O conceito de Liberdade no sujeito desejante é polissémico e exerce o seu efeito na construção identitária, na ética do Ser e nas diversas posições políticas e ontológicas com que se depara. Já nos tempos da Antiguidade, à excepção dos escravos, a liberdade é um estado de Ser com responsabilidades versus obrigações na comunidade ou na polis.
Lembra-nos na sua Nota de Autor:
E que Liberdade?
“a de ser livre de”, como liberdade das restrições da sociedade;
“ser livre para”, como liberdade para fazer o que queremos fazer;
“ser livre para ser”, como liberdade não apenas para fazermos o
que queremos, mas para sermos quem temos que ser!
Luís Pais Amante algumas vezes incompreendido pelo seu impecto intenso de fazer expandir as concepções, as convicções e os sonhos que tem, de construir, unir, solidarizar-se e partilhar, nessa qualidade empreendedora de fazer acontecer inscreve-se e pode apresentar-se paradoxal, porque também se revela que desde sempre mitigou a realidade imediata, dando nome ao impensável e à irracionalidade das emoções e de realidades cruéis, transformando essas experiências incompreensíveis ou dolorosas em sonhos e em esperanças de expressão poética.
Em conjunto com ele, como parceira-amiga na construção e transmissão na crença da bondade do Homem e, da função família, no nosso ninho relacional e emocional no caminho intersubjetivo de reciprocidade, de crescimento mútuo, tive esta oportunidade de partilhar publicamente a minha profunda admiração pela Pessoa e pelo Homem profissional e ético, que o meu marido representa.
Tem sido no exercício do amor simplesmente, que ambos temos caminhado com respeito e cumplicidades, na arte da transformação-criação o que se manifesta no poema O nosso Sonho Azul -cujo projeto se materializou na reconstrução da nossa Casa Azul- que, de seguida, será dito pelo nosso amigo incondicional Humberto Matias.
E quando digo nossa casa, quero transmitir, a vós penacovenses, que me acolhem, que já se tornou real o sonho.
O nosso plano foi, é e será o de revelar Penacova, como um lugar especial, impactante e acolhedor como o azul, a todos que nela habitam e a todos que a observam e a visitam.
O Amor que tenho por este homem singular, filho extremoso, marido único, pai-amigo, avô carinhoso, autor sensível e poeta, dá-me o direito de lhe dizer MUITO OBRIGADA e PARABÉNS!
Vou partilhar convosco um poema inédito, escrito nas nossas férias aqui na Casa Azul, no tempo de pausa do Luís, enquanto preparávamos a casa, no verão passado, para acolher os jovens das Jornadas Mundiais da Juventude.
Este poema, como outros, manter-se-á no nosso baú e revela humor e a sua condição genuína
Fora do tempo
Tempo é a normalidade a passar
E também o calendário a abrir as suas folhas
Algumas de “pernas pró ar”
Sem parar
Eu sinto estar
Fora do tempo d’agora
Que parou para eu me vir embora
Fico do lado de cá, fora do tempo, a observar
O que se está a desenrolar
Do lado de lá do espelho da Vida
E a querer adivinhar o tempo que ainda irei ter
Para além do que tenho estado por aqui a sorver
…
É bom gozar o tempo enquanto se tem
Usufruí-lo, dormir com a cabeça na fronha
Do relento
Colmatar a necessidade
De ser sem-abrigo militante
Por vezes delirante
E vivenciar, realmente, o modo do perigo
É chato que o tempo esteja malparecido
Com Sol vazio
Sem Estrelas com brilho
Ou Luas de luar crescido
… Imperdoável, até!
Luís Pais Amante
Casa Azul
Para terminar, reparem, por favor, o alcance da anotação, que ficou escrita, no final do poema: Em férias, rebolando no tempo do “quase nada pra fazer”.
Acreditemos, então, que apesar de a alma de poeta poder ser fingidora, como disse Fernando Pessoa, no nosso caso, a mente deste ser humano é capaz de mover montanhas…
MUITO OBRIGADA por me terem escutado!
BIBLIOGRAFIA
Amante, Luís Pais (2023). A Liberdade Actual. Calçada das Letras.
Bion, A. (1973) Atenção e Interpretação, Rio de Janeiro Imago,
Sartre (2004). O Ser e o Nada- Editora Vozes.
Moniz Pereira, L & Lopes, A (2020) Máquinas Éticas, Da Moral da Máquina à Maquinaria Moral. Nova FCT Editorial. Coleção Outros Horizontes.
Han, Byung-Chul (2023). La crisis de la narración.Barcelona Ed.Herder
HEIDEGGER, M. (2012). A essência da Liberdade Humana: Introdução à filosofia. Rio de Janeiro, Via Verita
Japiassú, H; Marcondes,D. (2006). Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar
FREUD, Sigmund [1908]. Escritores criativos e devaneio. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
20 de janeiro de 2024
Começo este encontro convosco, aqui neste dia tão especial para o Luís e para nós - família e amigos aqui presentes- num ano particular, 2024, tempo de comemoração dos 50 anos de Liberdade em Portugal, com uma mensagem do médico Adolfo Correia da Rocha, grande romancista, ensaísta, escritor e poeta, cujo pseudónimo é Miguel Torga (1907-1995),
Escreveu ele nos seus Diários, em 1977:
Não há pensamento onde não há liberdade. Os nossos oito séculos de opressão e de intolerância deram isto: um povo cujos intelectuais raciocinam sempre a fazer figas.
Para ficar assinalado dentro de cada um de nós aqui presentes, na memória afectiva desta Penacova, terra maravilhosa, acolhedora, cujo reflexo e brilho das águas do rio Mondego servem de inspiração e dão emoções fortes ao autor, que nos abraça, aceitei este convite do meu querido marido para apresentar o seu livro A LIBERDADE Actual, como um repto do meu amante, cuja sensibilidade e sábia inteligência me deixa ainda surpreendida!
Confesso, que este pedido me causou espanto.
Aos poucos fui-me mentalizando, sentindo reconhecimento e apreço, como um misto de sensações, as que daqui emanam, pela responsabilidade da tarefa e pela proposta de objetividade (im)possível.
Este convite difícil de recusar e de responder, para pensar tanto o Autor como a qualidade da sua Obra - uma vez que não poderei ser tão isenta como seria de esperar - tem a vantagem de, estando ao seu lado e vivendo com ele este percurso poético e literário, poder partilhar convosco, a minha con-vivência privilegiada com a essência do Luís, do lugar da inspiração e da criação simbólica.
O desejo subjetivo que pretendo transmitir, é o do legado de SER Livre com o amor à vida e à verdade, à família que trazemos dentro de nós, também enquanto Avós orgulhosos e crentes num futuro escolhido e construído para e com os filhos e netos, o que vivemos com a Esperança que as gerações futuras nos dão; … retendo que é precisamente à geração dos nossos netos, a quem este livro foi dedicado: André, Madalena, Martim, Maria Teresa, Margarida e Maria do Carmo.
Para fazer crescer sensibilidade e fantasia, ampliar sonhos e pensamento simbólico para dar sentido à vida, há que contar memórias e estórias às crianças e aos jovens aqui presentes, adultos de amanhã.
Para fazer Cultura e Conhecimento há que comunicar, divulgar o que se vive e sente na alma consciente do nosso Eu, do sujeito desejante;
…há que partilhar e compartilhar a nossa historia de vida, a dos avós e das origens, aos nossos filhos e netos, sem medo de passar os valores, as crenças, os costumes antigos do passado, da vida familiar de então e, até revelar sonhos e devaneios;
…o que importa é dialogar e escutar com os mais jovens, ouvir verdadeiramente o que estas gerações também têm para nos ensinar e contar, apreender com eles o inédito e, assim abrirmos espaço de encontro;
…há que criar momentos na dinâmica familiar – para além da correria do fazer do dia a dia - em pausa do uso das máquinas eletrónicas, espaço de aprofundar relações com a música e a arte, o diálogo com sentimento genuíno, mesmo deixando trespassar vulnerabilidades e emoções.
Esse é o tempo de qualidade.
Aí ensaiam-se vínculos de amizade e confiança, aprende-se no reconhecimento dos afectos, a arte da com-vivermos em liberdade com o melhor, o insuficiente e também com o pior da condição humana.
Parafraseando o poema Sísifo dos Diários de Miguel Torga (1977), diz-nos ele:
se puderes, sem angústia e sem pressa e os passos que deres, nesse caminho duro do futuro, dá-os em liberdade, enquanto não alcances não descanses, de nenhum fruto queiras só metade
O mito de Sísifo conta-nos a história de um homem, da Grécia Antiga, hábil e inteligente, persistente em recomeçar, fundador da cidade de Coríntia que irritou os deuses porque conseguiu prender Tanatos. Como castigo de Zeus, o deus dos deuses e dos deuses da morte e da guerra, Sísifo nunca mais morreu, mas teve de cumprir um castigo eterno: realizar um trabalho exaustivo e sem fim. Teria de empurrar uma enorme pedra montanha acima. Esta, quando chegava ao topo, devido ao cansaço do homem, rolava morro abaixo. Sísifo deveria novamente levá-la para cima. Esse trabalho teria que ser feito todos os dias, por toda a eternidade.
A memória de futuro, a criação, a perseverança e a lucidez, bem como o empenho com inteligência parecem-me caracterizar, parte da essência imanente de Luís Pais Amante submetido à sua deusa severa chamada Necessidade, espraiando-se no gozo e afã da criação da palavra escrita.
Frequentemente encontro o autor num despojamento existencial, absorto, não condenado ao determinismo, onde o tempo é horizonte da compreensão do seu sentido de Ser (Heidegger, 2012) mas completamente livre e entregue ao pensamento, à sua racionalidade na sua dimensão existencial. (Sartre, 2014).
Nesses momentos pressinto e, observo com orgulho, que o autor está a projetar o ser-em-si no nada, como protagonista único do seu projeto de vida. É no próprio acto da escrita, que esboça, cria e comunica a sua visão do mundo, com o propósito ético de transmitir essas leituras subjetivas a todos, como responsabilidade social e política na polis.
Encerrado em si, em diálogo com o mundo interno povoado de recordações e de vivências que o acompanham intimamente, ausente de qualquer interação, engendra a existência humana condenada à liberdade, porque não pode renunciar quem é.
Escrevendo com lucidez, perpetua o seu apego à realidade, à dignidade, na relação dinâmica e transformadora de olhar o mundo circundante, onde o não-ser (o nada) busca essência não em si, mas na pluralidade; à descoberta do para si, manifestação do seu sentido mais alto de pragmatismo onto-fenomenológico. (Sartre, 2014).
O efeito da ars poética está no talento e insight que o autor -não sendo psicanalista- recolhe do seu espaço psíquico íntimo, recordações que o presente pode evocar, que ajuda o leitor a libertar as tensões da mente, parafraseando Sigmund Freud no trabalho Escritores Criativos e Devaneios de 1907/8
A propósito do poema Liberdade, diz-nos o autor:
Eu gosto de ser livre
De sonhar ao vento
De caminhar ao relento,
de respeitar o outro em ti,
Sentir passar-te por entre os dedos da mão
Sorver o som da tua melodia em algodão
Acariciar-te, etc, etc.
Enfim, assume-se e, é um homem livre, apaixonado pelas coisas simples da vida, pelos costumes das suas origens, mas também sabe envolver-se e aproximar-se do novo e do original, antecipando prestígio e sucesso.
Acrescento com descrição, que surpreendi o Luís no dia do seu aniversário, em 15 de janeiro de 2012, com uma primeira Edição de Autor dos seus poemas capeados.
Aí, nesse primeiro livro, reuni e compilei alguns dos poemas escritos nas contracapas da muita literatura, que o autor desfolhava nos intervalos do seu trabalho como Consultor Internacional e, nas inúmeras viagens pelo mundo, que foi realizando como Presidente do Grupo Place, enquanto mentor de negociações e em preparação, implementação e avaliação de projectos.
Sou tão sua admiradora como crítica em primeira mão, como ainda me sinto, por vezes uma pequenina musa “companheira de route”. Surpreende-me com a sua riqueza, profundidade e criatividade, como se fosse a primeira vez, que o escuto ou o leio.
Também, aqui me cabe convocar o facto de o seu primeiro poema ter sido publicado na idade jovem de 17 anos, numa brochura do Movimento Joaninha de Penacova, de que era coordenador, em fevereiro de 1973.
Poema alusivo à desumanidade do tempo da guerra do Vietname, já com preocupações politico-ideológicas que o inquietavam e, se mantêm, movendo-o a dar passos para construir Paz e, onde dizia:
Tempo de Paz
Há gritos, há tiros
Há morte, há desgraça
Para lá do arame
E, de repente começa
A Paz no Vietnam!
Será a paz o tempo
em que nada se faz?
Não!
Com ela acaba a morte audaz
E só do bem fazer se é capaz…
O Luís Pais Amante tem-nos proporcionado realizar imensas viagens interiores, em sinestesias - a associação livre de dois ou mais dos cinco sentidos humanos – com sentimento e sagacidade cujas tonalidades e formas caleidoscópicas da sua escrita transformam-se em – poesia, opinião e prosa, que espelham o seu ser intuitivo, buscando-se noutros horizontes... e até na transcendência.
Revela-se um homem insatisfeito, intenso e acelerado porque como diz frequentemente não tem tempo a perder e sendo virtuoso e pródigo em representações e elocuções éticas e de figuras imagéticas, analogias e metáforas, reduz o hiato entre desejo e satisfação.
Versátil na capacidade de rêverie sustenta-se naquela habilidade sensorial e sensitiva, denunciando o seu posicionamento humanista nas elocuções éticas que fazem parte de si em todas as facetas da sua personalidade.
Neste livro A Liberdade Actual, prefaciado pelo Professor David Almeida, cuja leitura recomendo, elucida reflexões que por ele, aqui, foram muito bem reveladas e sintetizados.
Sublinho, ainda, a importante e estreita colaboração que se tem desenvolvido entre o autor e o Jornal Digital Penacova Actual, na pessoa do Pedro Viseu, que tem auxiliado a divulgação do trabalho literário não só do autor, como tem aprofundado o sentimento de pertença dos cidadãos do município, entre os que cá vivem com os que partiram para outras paragens do território nacional e internacional.
Luís Pais Amante, comprometido com a cultura beirã da sua terra natal, penacovense de gema, como sujeito desejante, leader por natureza, preocupa-se com o bem-estar das pessoas e interiorizou a responsabilidade social da importância da função pedagógica da arte poética, cujo dom nasceu com ele.
Este espírito delicado atraído pela felicidade do homem racional, amigo do seu amigo também não deixa de ser um animal político numa visão Aristotélica.
Distribui no interior do Outro o seu empowerment, rege-se pelo seu livre e honesto arbítrio, na apreciação estética, filosófica e política do mundo civilizacional contemporâneo, construindo as suas hipóteses interpelativas, independente do influxo externo e fixando o seu amor à verdade (Bion,1973) na análise e observação em sintonia profunda com os seus mais íntimos sentimentos audazes e corajosos.
Luís Pais Amante vive na Modernidade tardia, ou Metamodernidade - e tem consciência disso, pelas observações e opiniões que aqui são publicadas.
Apreciei e deixo como sugestão A “Eutanásia” incompetente; A “profissão” que Abril não queria; e O País em suspenso, análises e reflexões da sociedade da informação que se revela incoerente para alguns, mas sim esvaziada de narrativas e de historicidade.
Como tão bem nos elucida, o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, autor da recente obra a Sociedade do Cansaço (2014) e A Crise da Narrativa (2023) estamos quase sucumbidos à falta de sentido de vida, à falta de consciência do Outro, à alteridade, privilegiando o paradigma do desempenho e do consumo, na auto e heteroexploração do trabalho para que, paradoxalmente, nos considerarmos livres.
Livres? Livres?
Livres como? Livres para quê?
Pergunto eu.
Pergunta o autor e o poeta.
A sociedade de informação sendo instantânea, momentânea, não faz memória do futuro!
Envolve as pessoas num coletivo mais solitário, infeliz, frágil.
Os seres humanos tornaram-se mais desorientadas, fixados à factualidade das relações interpessoais, sem tempo de estar com o Outro, sem possibilidade de contarem estórias e fazerem história.
A Humanidade, estando mais alienada da conceção da sua finitude e da morte, como posicionamento generalizado, reduz o valor da existência do Ser, ao tempo vivido em contingências, em que a des-narração generalizada das vivências e a nudez de estilos de vida, reforça a aridez existencial, como também aumenta o sentimento de desligamento, de transitoriedade e de instantaneidade. Citando José Tolentino Mendonça,
Passamos pelas coisas sem as habitar, falamos dos outros sem os ouvir, juntamos informação que nunca chegamos a aprofundar, tudo transita num golpe ruidoso veemente e efémero.
Apesar de estarmos em Penacova, numa vila do interior de Portugal, não seremos ou estaremos nós aqui presentes, testemunhas e até protagonistas, de parcas e cada vez mais pobres experiências vividas em conjunto, num coletivo civilizacional esvaziado, quase adormecido, senão estilhaçado, numa frenética dependência do digital, do smartphone e das redes sociais?
Parece que estamos esmagados pelo individualismo como consumidores finais, em que o valor do ser/estar aí nas relações humanas, inscrevem-se na distração e alheamento senão dispersão, remetendo o acolhimento do outro, para depois agora não…
Da escuta, da liberdade de viver com tempo e disponibilidade, que ainda se vai sentindo a fugir, aqui, por estes lugares, não cosmopolitas, a verdade é que nos temos tornado tendencialmente, seres associais, desconfiados e ou isolados do coletivo.
Ao longo da História da Humanidade, a escravatura foi sendo abolida, mas hoje, sec.XXI, verificamos que co-existimos com estilos de vida assombrados pela pulsão tanática, quase sem alternativa, onde os processos migratórios em massa à escala planetária, onde se compra e vende pessoas como se de objetos se tratassem, onde Ilegalmente se compra e se vende o bilhete da ilusão de liberdade, para fugir da guerra, da fome e da morte.
A era da inteligência universal anónima, avatares que nos orientam por algoritmos as decisões de quaisquer cidadãos do mundo, nesta civilização em crescimento digital chegou!
Útil e vantajosa em diversos domínios o acesso à Informação é impessoal, frio e volátil. Permite aproximação relativa entre as pessoas, proporcionando socialização virtual, mas esta pode confundir o sujeito com o seu desejo e a liberdade.
Por efeitos do avanço tecnológico, somos rapidamente inscritos em bases de dados e tornamo-nos em ser robotizados expostos e condicionados ao já programável e controlado por máquinas não-éticas, que aprendem cada vez mais por si mesmas e cuja manipulação proveniente da Inteligência Artificial (I.A) vem minimizar ou mesmo substituir a motivação e vontade do Homem.
Este poder da IA, outorgado pelos humanos e a crescente guerra cibernética, leva-nos a interrogar e a pensar a ética para uma moral computacional.
É imperioso regular a competição, os riscos e as vicissitudes da cibernética, para segurança ontológica de todos nós.
Recomendo a obra intitulada Máquinas Éticas, Da Moral da Máquina à Maquinaria Moral, trabalho conjunto do Prof. Luís Moniz Pereira e do filósofo António Lopes.
Embora estes avanços tecnológicos sejam uma conquista extraordinária da espécie humana sobre a Natureza, o sonho e o ideal é o de que todos -em equidade-a beneficiássemos de forma igualitária e justa.
!Mas já se avizinha a repetição da História: grandes êxitos grandes desigualdades entre os Povos!
Contemos histórias e alimentemo-nos de relações com os amigos e família e façamos por entender as necessidades e interesses do outro, com a alma sensível, amorosa e, criativa que cada um possui e não se esqueçam por favor de se cumprirem com sujeitos dignos que fazem por SER como desejem Ser!
E, voltando ao Poeta, retomo alguns pensamentos e confidencias sobre a experiência de vida partilhada com o autor, de Luís Pais Amante, para pensarmos aqui em conjunto, este contexto que inclui e envolve a obra A Liberdade Actual.
Como se pode comprovar ao longo da obra já publicada, individual e anteriormente: Conexões; Reflexos; Poesia das Circunstâncias do Tempo; Penacova (in) Temporal e Inquietude, para além da participação em obras coletivas, o autor apresenta-se e faz declaração da sua livre expressão, de pensamento próprio desligado de interferências alheias.
A partir dos títulos dos livros já publicados apreende-se o lugar de observador/testemunha e protagonista da co-construção de realidades alternativas do mundo paradoxalmente mais livre, estreito e fechado que nos submete a escravaturas.
A interpretação e a transformação em poesia, opiniões e devaneios, tempo intermédio da Modernidade tardia, que referi acima, leva-nos ao rubro a sua ironia sincera, exprimindo coerência na condição humana, realizando conexões entre a luz, as sombras e as trevas, entre a clareza e a incerteza, a amálgama e a complexidade das circunstâncias da vida dos nossos tempos.
Inquieto e melancólico, pela incerteza da evolução dos tempos, concentrado no melhor de si mesmo como pessoa-cidadão, cronista e poeta, presentemente numa fase da pró-cura do enigma da construção do soneto, escreveu um poema admirável, que pode auxiliar o sentir de qualquer um de nós passageiros deste planeta, que nos interroga profundamente,
Nu
Neste tempo de percurso cinzento, fiquei nu
Corri devagar, pensei sem saber, contive a tristeza
Não sorri, nem o exteriorizei, nem falei com o cu
Apenas dei por mim a percorrê-lo só, com leveza
A minha rua, sem gente, vai nua de despojada
E eu vou despido no silêncio que me afaga
De beijos francos, carinhos em laço de vaga
De abraços ternos, de ti como sorte almejada
Nu é o despido de tudo, até da auto-estima
Silêncio é o ponto mais assertivo da rima
Gente é vida, amizade é culto abrangente
A tristeza cresce nesta condição dormente
O mundo entorpece até para lá do pungente
A crença desvanece, passando a saber a lima
Luís Pais Amante
Telheiras Residence
9Set20; 17h45
Cogitando sobre as consequências deste tempo
A mensagem da obra reflete um grito, um alerta à Liberdade individual e coletiva, à dignidade, à importância da atitude vigilante face ao modo como vivemos quase sem escolha, que traduz a alma sensível e cuidadosa que define o autor.
O espírito intrinsecamente genuíno, sem disfarces, frontal como alguns de Vós conhecem desde a sua tenra idade, tem um estilo relacional épico e apaixonado pelas pessoas e pelas causas profundas e verdadeiras como a liberdade, a igualdade e a justiça, sendo esta matriz constante nas diferentes áreas do seu percurso de vida.
O conceito de Liberdade no sujeito desejante é polissémico e exerce o seu efeito na construção identitária, na ética do Ser e nas diversas posições políticas e ontológicas com que se depara. Já nos tempos da Antiguidade, à excepção dos escravos, a liberdade é um estado de Ser com responsabilidades versus obrigações na comunidade ou na polis.
Lembra-nos na sua Nota de Autor:
E que Liberdade?
“a de ser livre de”, como liberdade das restrições da sociedade;
“ser livre para”, como liberdade para fazer o que queremos fazer;
“ser livre para ser”, como liberdade não apenas para fazermos o
que queremos, mas para sermos quem temos que ser!
Luís Pais Amante algumas vezes incompreendido pelo seu impecto intenso de fazer expandir as concepções, as convicções e os sonhos que tem, de construir, unir, solidarizar-se e partilhar, nessa qualidade empreendedora de fazer acontecer inscreve-se e pode apresentar-se paradoxal, porque também se revela que desde sempre mitigou a realidade imediata, dando nome ao impensável e à irracionalidade das emoções e de realidades cruéis, transformando essas experiências incompreensíveis ou dolorosas em sonhos e em esperanças de expressão poética.
Em conjunto com ele, como parceira-amiga na construção e transmissão na crença da bondade do Homem e, da função família, no nosso ninho relacional e emocional no caminho intersubjetivo de reciprocidade, de crescimento mútuo, tive esta oportunidade de partilhar publicamente a minha profunda admiração pela Pessoa e pelo Homem profissional e ético, que o meu marido representa.
Tem sido no exercício do amor simplesmente, que ambos temos caminhado com respeito e cumplicidades, na arte da transformação-criação o que se manifesta no poema O nosso Sonho Azul -cujo projeto se materializou na reconstrução da nossa Casa Azul- que, de seguida, será dito pelo nosso amigo incondicional Humberto Matias.
E quando digo nossa casa, quero transmitir, a vós penacovenses, que me acolhem, que já se tornou real o sonho.
O nosso plano foi, é e será o de revelar Penacova, como um lugar especial, impactante e acolhedor como o azul, a todos que nela habitam e a todos que a observam e a visitam.
O Amor que tenho por este homem singular, filho extremoso, marido único, pai-amigo, avô carinhoso, autor sensível e poeta, dá-me o direito de lhe dizer MUITO OBRIGADA e PARABÉNS!
Vou partilhar convosco um poema inédito, escrito nas nossas férias aqui na Casa Azul, no tempo de pausa do Luís, enquanto preparávamos a casa, no verão passado, para acolher os jovens das Jornadas Mundiais da Juventude.
Este poema, como outros, manter-se-á no nosso baú e revela humor e a sua condição genuína
Fora do tempo
Tempo é a normalidade a passar
E também o calendário a abrir as suas folhas
Algumas de “pernas pró ar”
Sem parar
Eu sinto estar
Fora do tempo d’agora
Que parou para eu me vir embora
Fico do lado de cá, fora do tempo, a observar
O que se está a desenrolar
Do lado de lá do espelho da Vida
E a querer adivinhar o tempo que ainda irei ter
Para além do que tenho estado por aqui a sorver
…
É bom gozar o tempo enquanto se tem
Usufruí-lo, dormir com a cabeça na fronha
Do relento
Colmatar a necessidade
De ser sem-abrigo militante
Por vezes delirante
E vivenciar, realmente, o modo do perigo
É chato que o tempo esteja malparecido
Com Sol vazio
Sem Estrelas com brilho
Ou Luas de luar crescido
… Imperdoável, até!
Luís Pais Amante
Casa Azul
Para terminar, reparem, por favor, o alcance da anotação, que ficou escrita, no final do poema: Em férias, rebolando no tempo do “quase nada pra fazer”.
Acreditemos, então, que apesar de a alma de poeta poder ser fingidora, como disse Fernando Pessoa, no nosso caso, a mente deste ser humano é capaz de mover montanhas…
MUITO OBRIGADA por me terem escutado!
Ana Marques Lito
BIBLIOGRAFIA
Amante, Luís Pais (2023). A Liberdade Actual. Calçada das Letras.
Bion, A. (1973) Atenção e Interpretação, Rio de Janeiro Imago,
Sartre (2004). O Ser e o Nada- Editora Vozes.
Moniz Pereira, L & Lopes, A (2020) Máquinas Éticas, Da Moral da Máquina à Maquinaria Moral. Nova FCT Editorial. Coleção Outros Horizontes.
Han, Byung-Chul (2023). La crisis de la narración.Barcelona Ed.Herder
HEIDEGGER, M. (2012). A essência da Liberdade Humana: Introdução à filosofia. Rio de Janeiro, Via Verita
Japiassú, H; Marcondes,D. (2006). Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar
FREUD, Sigmund [1908]. Escritores criativos e devaneio. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
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